Escrever sobre Rui Santana e sua pintura é um exercício ao qual eu me entrego com prazer, mesmo ciente dos riscos. Suas telas têm um texto próprio, que não combina com a palavra, matéria-prima do meu ofício.Diante das lonas esticadas - tintas e retintas - prontas para a exposição, caio na tentação dos verbos, me agarro aos adjetivos. Percebo o erro e recuo. Tento unir as imagens à voz do artista, que se esquiva das perguntas. Sua obra fala por si e dispensa apresentações.
Na tentativa de conter minha narrativa, procuro refúgio nas palavras alheias, retiradas de recortes que documentam a trajetória do artista. Peço socorro aos mestres do jornalismo cultural mineiro e críticos de arte: Celma Alvim, Mari’stella Tristão, Moacyr Laterza, Walter Sebastião, José Márcio de Barros e Luiz Edmundo Alves.
Primeiro busco inspiração em Celma Alvim, que rendeu-se à ousadia do pintor, em 1987. Com um texto sensível e poético, ela dá boas-vindas à inventividade de Rui Santana, que usou a arte para provar que “a cabeça não cabe na cabeça”, movido pela ânsia de criar e inovar. “A extrema sensibilidade do jovem artista lança, nos espaços da tela, um certo desalinho de cores e formas, sem dúvida comprovante da liberdade que corteja todo o seu processo criativo”.
Dezoito anos depois, o desalinho de cores e formas persiste. A liberdade se revela na superposição de tons, sem compromisso com o princípio e muito menos com o fim. As telas atuais revelam uma dança frenética de desenhos orgânicos. O artista dá vazão a uma torrente de elementos inspirados na natureza de Rio Acima, cidade onde fixou morada e ateliê. Fotografadas na retina do artista, flores e folhas surgem quadro a quadro, carregadas pela correnteza da água que renova, canta e encanta.
O olhar de quem observa as pinturas se torna cativo e comunga do prazer do artista. Esta sempre foi a proposta de Rui Santana, um ritual necessário à invenção, tão bem captado pelo crítico José Márcio de Barros, em 1988, ao descrever obras “produzidas na ousadia de deixar sugerido ou desvelado o ato frenético da criação”, um convite para nos tornarmos “cúmplices desta grande e séria brincadeira, que é ser expressivo, que é ter prazer ao criar”.
Nesta mostra, o orgasmo do artista é uma explosão de cores, que revela um jardim próprio, autoral e forte. A pintura de Rui nos arrebata, enche os olhos e a alma. Ele, que ama o frenesi das grandes cidades, mergulha no sossego restaurador de uma paisagem, tão próxima de Belo Horizonte – e que parece distante, intocada, quase sagrada. Só não fica imune aos humores do tempo, que não pára, até mesmo nas telas de Rui: é primavera, verão, outono e inverno. Depende do olhar.
A maturidade não diminuiu o êxtase e não desacelera a mente inquieta do artista. Rui tem pressa, quer extravasar sentimentos. Sua pintura “é a evasão da emoção, da forte espiritualidade que possui. É o inconsciente que conduz o ato de pintar, o gesto em ritmo acelerado, dinâmico, na eloqüência da liberdade”, descreve Mari’stella Tristão, em um recorte de 1988.
As pinturas de hoje deixam vir à tona o desejo de fugir do lugar comum e de criar incessantemente. Sozinho ou em boa companhia, como na época do Grupo Azar. Ao lado de Gabriela Demarco, Gilberto de Abreu e Orlando Castaño, Santana soube “articular o disperso, dispersar o articulado, ir e vir no ritmo de todos os conflitos e de todas as possibilidades. Ser, eternamente, este presente cheio de enigmas, problema para as mitologias do passado e provocação de futuro. Nada de novo, tudo de novo”, comenta Walter Sebastião, no catálogo da exposição de 1991, no Brasil e no Chile.
O que diferencia Rui Santana talvez seja a forma como vê o mundo e dialoga com o seu ambiente, seja em Paris ou numa cidadela de Minas, cercada de matas e cachoeiras. “Rui é um artesão, um artífice, um artista. E é tudo isso, porque primeiro ele é um grande esteta, que sabe conversar amorosamente com as coisas do mundo”, define Moacyr Laterza, em 1997.
O diálogo intenso entre o artista e o seu espaço é o fio condutor desse conjunto de obras. Para apresentá-las, tomo emprestadas as palavras de Luiz Edmundo Alves, extraídas do convite da mostra anterior, realizada há dois anos. Ele expressa a capacidade transformadora do artista: “uma força propulsora que transforma rabiscos ondulantes em ramagens; traços, em folhas; pingos de tinta, em flores e, finalmente, tudo, em arte”.
Andréa Vieira
Jornalista
Outubro de 2004